Início do conteúdo

IFPE Recife debate a importância dos arquivos da Ditadura na busca pela verdade e justiça

Antes do debate, foram entregues certificados com os votos de aplauso conferidos ao Instituto, ao CHMD e ao Malungo Lab


Na tarde da última sexta feira (12), o IFPE Recife realizou o evento “Arquivos e Ditadura: democracia também se faz com arquivos”, relembrando e debatendo memórias sensíveis de épocas próximas. O evento foi a primeira edição em 2026 do projeto Diálogos Interdisciplinares, e também integrou as celebrações da 10ª Semana Nacional de Arquivos. A organização ficou a cargo da Coordenação de História (CHIS) do IFPE Recife, juntamente com o Centro de História, Memória e Documentação (CHMD-Recife) e  o Laboratório de Humanidades Digitais (Malungo Lab).

No primeiro momento, a vereadora Cida Pedrosa realizou a entrega de três certificados relativos aos votos de aplauso por ela requeridos em 2025, por ocasião do aniversário de 116 anos do IFPE Recife. O diretor geral do campus, Fábio Nicácio, e as equipes do CHMD e do Malungo Lab receberam a honraria.

Circuito da Memória

Cida falou sobre a lei 19446/2025, de sua autoria, a qual estabelece um Circuito da Memória no Recife,  transformando a cidade numa espécie de museu a céu aberto. O Circuito é composto por pontos históricos, monumentos, imóveis, obras de arte, obras de infraestrutura e espaços públicos de relevância social, política e cultural no contexto da ditadura militar (1964-1985). Ela explicitou a dificuldade que precisou enfrentar para aprovar seu projeto, por questões de gênero e partidárias.

Os marcos históricos do Circuito estão relacionados tanto à resistência democrática, como às forças da repressão, e funcionam como espaços de reflexão e de ensino. “Cada local de memória representa um alerta e um ensinamento”, destacou Cida. Na antessala do evento, foi exposta a série de fotografias realizadas por estudantes do Ensino Médio do IFPE (6º período do curso técnico integrado em Saneamento) dentro da disciplina de História, registrando e explicando cada um dos marcos do Circuito.

Arquivos da Ditadura

A mesa de debates foi composta por Cida Pedrosa e pelo professor Márcio Ananias, membro da Comissão da Verdade da UFPE, e mediada por Dimas Veras que, além de professor do IFPE e coordenador do Malungo Lab, também integra a mesma Comissão. No momento, eles estão resgatando as histórias de estudantes e servidores que na época foram sequestrados, presos sem julgamento, torturados e até mortos pelo governo militar.

Cida falou sobre sua obra poética, na qual retrata a Guerrilha do Araguaia (durante a qual foram exterminados mais de 60 integrantes e um número não conhecido de camponeses e indígenas). “O que nós temos e sabemos até o momento é pelo intermédio das famílias de classe média ou dos sobreviventes da época, que vêm denunciando o que ocorreu. É preciso criar Comissões da Verdade para tratar de outras camadas da população que não tiveram visibilidade ainda”, afirmou, lembrando que já ouviu muitos relatos de trabalhadores rurais que após o Golpe Militar foram jogados pelos patrões nas caldeiras das usinas de cana de açúcar, especialmente na região da Mata Sul de Pernambuco.

Márcio apresentou alguns vídeos produzidos por alunos de comunicação da UFPE sobre alguns estudantes que foram assassinados ou estão desaparecidos até hoje, como Rui Frazão, Umberto Câmara Neto, Ranúsia Rodrigues, Miriam Lopes Verbena e Ezequias Bezerra da Rocha. Ele destacou que “não há democracia sem memória” e que os arquivos que contam a História “são o melhor antídoto contra a mentira institucional, porque transformam os rumores em provas e a dor em justiça”. “Este foi um período terrível que alguns insistem em chamar de revolução. Os documentos ainda existem porque os militares tinham certeza da impunidade, pois a trajetória de nossa república é recheada de golpes e os golpistas nunca foram condenados por isso”, acrescentou.

Após as apresentações, houve espaço para perguntas da plateia e um dos momentos que mais chamou atenção dos estudantes presentes foi o relato de sequestro e tortura de adolescentes como eles, e até de crianças, comprovando a extensão das práticas dos integrantes do governo da época. Ao final da sessão, o professor Dimas Veras afirmou seu desejo de que “este encontro ajude a entender que a democracia não é uma conquista definitiva”, cabendo a cada um resguardá-la.

Fotos: Mariana Mesquita (Ascom) e equipe Malungo Lab

Fim do conteúdo