Início do conteúdo

Artigo sobre pessoas com deficiência e pessoas diagnosticadas com autismo é publicado na Revista Travessias

Pesquisa da professora Andreza Vidal Bezerra, com dois pesquisadores, faz uma análise dos dados do Censo IBGE 2022 por cor/raça e dificuldades funcionais


O Artigo “Pessoas com deficiência e pessoas diagnosticadas com autismo no Brasil: uma análise dos dados do Censo IBGE 2022 por cor/raça e dificuldades funcionais” da professora Andreza Vidal Bezerra, professora de Atendimento Educacional Especializado (AEE) do IFPE Campus Paulista, com a professora Adenize Queiroz de Farias, da Universidade Federal da Paraíba; e o professor Luiz Renato Martins da Rocha, da Universidade de São Paulo, foi publicado na Revista Travessias – uma publicação científica eletrônica quadrimestral ligada ao Programa de Pós-Graduação em Letras e ao Grupo de Pesquisas em Educação, Cultura, Linguagem e Arte da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. 

As pesquisadoras e o pesquisador se aproximaram por conta da área de interesse, por meio dos estudos e das pesquisas desenvolvidas no campo da Educação Especial Inclusiva e dos Estudos da Deficiência. O artigo, idealizado pelo professor Luiz da Rocha, resulta de uma colaboração acadêmica construída a partir de interesses de pesquisa que se entrelaçam e a entrevista abaixo conta as respostas do trio de professores.

O artigo, publicado na Revista Travessias,  integra a seção de Educação, Volume 20, nº 3 de 2026. A Revista divulga estudos nas áreas de educação, cultura, linguagem, literatura e artes e publica artigos científicos, ensaios, resenhas e outros tipos de produção.

 

Como surgiu a ideia do artigo?

A ideia do artigo surgiu a partir da divulgação dos resultados preliminares do Censo Demográfico 2022 sobre pessoas com deficiência e pessoas diagnosticadas com autismo, os quais representam um marco importante, especialmente porque, pela primeira vez, o Censo brasileiro reuniu informações de abrangência nacional sobre pessoas diagnosticadas com autismo.

Ao analisarmos os dados, percebemos a necessidade de ir além dos números absolutos e observar como essas populações estavam distribuídas por cor/raça, ou seja, a partir de uma perspectiva interseccional, bem como os tipos e os graus de dificuldades funcionais apresentados pelas pessoas com deficiência. A partir desta inquietação passamos a refletir sobre o que os indicadores revelam, mas também sobre as desigualdades que podem permanecer invisibilizadas, sobretudo quando consideramos as barreiras raciais, econômicas, territoriais e institucionais no acesso ao diagnóstico e aos serviços públicos.

Qual a importância do artigo?

A importância do artigo reside na análise de dados inéditos e de abrangência nacional sobre pessoas com deficiência e pessoas diagnosticadas com autismo, considerando os recortes de cor/raça e as dificuldades funcionais, demonstrando que os números precisam ser interpretados de forma cuidadosa, pois uma maior quantidade absoluta de pessoas em determinado grupo não significa, necessariamente, maior prevalência ou maior exposição à deficiência ou ao autismo.

Os resultados indicam que 7,3% da população brasileira com 2 anos ou mais apresenta alguma deficiência e que 1,2% da população foi declarada como diagnosticada com autismo. Embora a distribuição por cor/raça seja relativamente próxima à composição da população geral, identificamos uma presença proporcional discretamente maior de pessoas pretas entre aquelas com deficiência. Em relação ao autismo, observamos uma participação relativa um pouco maior de pessoas brancas e menor de pessoas pretas e pardas entre aquelas que possuem diagnóstico declarado.

Os dados supracitados não nos permitem afirmar que o autismo seja mais frequente entre pessoas brancas. Ao contrário, podem indicar desigualdades nos percursos de acesso ao diagnóstico e aos serviços especializados. Nesse sentido, o artigo contribui para problematizar a invisibilização estatística de determinados grupos e reafirma que as políticas de inclusão precisam ser, simultaneamente, orientadas pela equidade.

Quais as dificuldades que vocês encontraram para analisar os dados de pessoas com deficiência e pessoas diagnosticadas com autismo na construção do artigo?

Uma das principais dificuldades decorreu do fato de que, durante a elaboração da pesquisa, os microdados referentes às variáveis de deficiência e autismo ainda não estavam disponíveis. Trabalhamos, portanto, com resultados preliminares e tabelas agregadas do Censo Demográfico 2022, condição esta que impossibilitou a realização de cruzamentos individualizados entre raça, gênero, renda, escolarização, território, deficiência e autismo.

Além disso, também não foi possível constituir grupos específicos, como pessoas com deficiência sem autismo, pessoas autistas sem deficiência, pessoas que apresentam ambas as condições e pessoas sem deficiência ou autismo. Além disso, as informações possuem universos etários distintos: os dados sobre dificuldades funcionais abrangem pessoas a partir dos 2 anos, enquanto a investigação sobre autismo considera pessoas de todas as idades.

Outro desafio importante está relacionado à própria forma de identificação. No caso da deficiência, o Censo utiliza perguntas sobre tipos e graus de dificuldades funcionais. Para o autismo, utiliza uma pergunta sobre a existência de diagnóstico realizado previamente por profissional de saúde. Desse modo, os dados não mostram necessariamente quantas pessoas autistas existem no país, mas quantas tiveram acesso a um diagnóstico e foram assim declaradas no Censo.

A distinção explicitada acima exige cautela, pois o acesso ao diagnóstico não ocorre de forma igualitária. Barreiras econômicas, raciais, territoriais, regionais e institucionais podem contribuir para o diagnóstico tardio ou para a subidentificação de pessoas pertencentes a grupos socialmente vulnerabilizados.

Diante dos resultados apresentados pelo estudo, quais políticas públicas e ações nas áreas de educação, saúde, acessibilidade e inclusão precisam ser fortalecidas para garantir direitos e reduzir as desigualdades vivenciadas por pessoas com deficiência e pessoas diagnosticadas com autismo?

Os resultados reforçam a necessidade de políticas públicas intersetoriais, orientadas pelos princípios da inclusão, da acessibilidade e da equidade. Na educação, é fundamental fortalecer a formação inicial e continuada dos profissionais, o Atendimento Educacional Especializado, a acessibilidade pedagógica e comunicacional, a oferta de tecnologias assistivas e a construção de práticas que assegurem não apenas o acesso, mas também a permanência, a aprendizagem, a participação e a conclusão dos percursos educacionais.

Na saúde, é necessário ampliar o acesso gratuito e territorializado à avaliação, ao diagnóstico e ao acompanhamento multiprofissional, especialmente para as populações negras, indígenas, periféricas, rurais e residentes em regiões com menor oferta de serviços especializados. Também é indispensável enfrentar o racismo institucional como uma barreira que pode interferir no reconhecimento das necessidades, nos encaminhamentos e na continuidade do cuidado.

No campo da acessibilidade, os dados evidenciam a necessidade de investimentos em acessibilidade urbana, comunicacional, informacional, digital e atitudinal, além da ampliação das políticas de saúde ocular, reabilitação, mobilidade e tecnologia assistiva. Como as dificuldades de maior grau se concentram proporcionalmente na mobilidade e nas funções mentais e de comunicação, algumas situações demandam suportes mais intensivos e articulados entre saúde, educação, assistência social e trabalho.

Também defendemos o aprimoramento dos sistemas de informação e monitoramento. As questões referentes ao autismo e às dificuldades funcionais poderiam integrar o questionário básico dos próximos censos, acompanhadas de cuidados metodológicos na formulação das perguntas e na formação das pessoas recenseadoras. Isso permitiria ampliar a cobertura e produzir informações mais detalhadas em municípios e territórios atualmente pouco representados.

Por fim, é fundamental que as pessoas com deficiência e as pessoas autistas participem da elaboração, do acompanhamento e da avaliação dessas políticas. Mais do que identificar impedimentos individuais, é preciso reconhecer e eliminar as barreiras sociais, institucionais e materiais que restringem oportunidades. O desafio consiste em transformar os dados produzidos pelo Censo em ações concretas, capazes de promover autonomia, participação social e garantia de direitos.

Acesse o artigo aqui

 

Fim do conteúdo