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Programa fortalece saberes tradicionais em territórios indígenas e quilombolas com apoio do IFPE
Iniciativa promove formação integrada entre conhecimentos acadêmicos e saberes tradicionais até final de junho
O Instituto Federal de Pernambuco (IFPE) está desenvolvendo, em diferentes regiões do estado, ações vinculadas ao Programa Nacional de Saberes Tradicionais, iniciativa da Escola Nacional Nego Bispo que tem como objetivo valorizar e integrar os saberes tradicionais à formação acadêmica e à educação básica.
As atividades, coordenadas pela Pró-Retoria de Extensão (Proext), estão em andamento nas cidades de Bom Conselho, Tracunhaém, São José da Coroa Grande e Sertânia, com cronogramas próprios para cada projeto e previsão de conclusão até 30 de junho deste ano.
Instituída pela Portaria MEC nº 537, de 24 de julho de 2025, a Escola Nacional Nego Bispo busca promover a articulação entre conhecimentos acadêmicos e os saberes dos povos indígenas e afro-brasileiros, contribuindo para a formação de estudantes de licenciatura, profissionais da educação básica e comunidades locais.
Por meio de seleção nacional realizada no segundo semestre de 2025, o programa contemplou quatro projetos submetidos por educadoras e educadores do IFPE, entre docentes e técnicos(as)-administrativos(as). As atividades tiveram início em fevereiro último, com encontros presenciais realizados em territórios quilombolas, terreiros e espaços culturais, além de ações desenvolvidas nos campi da instituição.
Como forma de incentivo à participação, cada cursista recebe bolsa no valor total de R$ 600,00, distribuída em três parcelas mensais de R$ 200,00, contribuindo para o acesso e a permanência nas atividades formativas.
Além dos encontros presenciais, o acompanhamento das turmas é realizado por mestres, educadores e servidores na instituição também por meio de plataformas digitais, garantindo a continuidade das ações e o fortalecimento das trocas de saberes.
Os projetos
O Programa Nacional de Saberes Tradicionais se fundamenta no conceito de confluência, entendido como o encontro de vidas e saberes que se movem em diferentes direções, mas que se conectam a partir de intenções e experiências compartilhadas. Essa perspectiva orienta as práticas formativas desenvolvidas, reforçando o compromisso com uma educação plural, inclusiva e socialmente referenciada.
Cada projeto apresenta propostas educativas alinhadas aos subeixos da Escola Nacional Nego Bispo — Artes e Ofícios; Línguas e Narrativas; Memórias e Oralidade —, além de dialogar com as cosmociências dos povos afro-brasileiros e indígenas. As turmas são compostas por até 25 participantes, entre estudantes de licenciatura e educadores da rede pública dos municípios próximos aos territórios atendidos. Confira abaixo um pouco de cada projeto:
“Vozes do Angico: oralidade, memória e educação quilombola como caminhos de resistência” – Bom Conselho
O curso teve início nos dia 20 de março no Centro de Formação Quilombola
Espedito Ferreira na comunidade quilombola Angico, município de Bom Conselho com a introdução do módulo ofertada pela liderança Márcia do Angico, a Pró-Reitora de Extensão, Laura Silva e Coordenadora de Políticas Inclusivas, Adiliane Batista.
Ao longo do dia 21 de março, as cursistas tiveram a oportunidade de construir uma discussão embasada na memória e narrativa de luta dos povos quilombolas do território Angico, que perpassa historicamente por conflitos por terra dos mais diversos.
O segundo módulo aconteceu nos dias 16 e 17 de abril, no quilombo Angico, com o viés prático na oficina de sabonetes glicerinados com ervas da caatinga. A atividade proporcionou as mulheres envolvidas o fortalecimento dos saberes tradicionais vinculados muitas vezes às práticas ancestrais que são trazidas por meio da oralidade de mãe para filha ou de avó para neta.
“Memórias que Educam: formação de educadores na cosmovisão afro-indígena do Terreiro das Salinas” – São José da Coroa Grande
O primeiro módulo aconteceu no Terreiro Salinas, localizado na zona rural de Abreu do Una, município de São José da Coroa Grande, entre os dias 11 e 12 de abril. Com a presença de Pai Lívio Martins, o curso teve início com apresentação dos objetivos do programa no território Ilê Axé Ayabá Omi; o cronograma de atividades; discussão sobre os marcos legais e apresentação de pensadores negros e pensadoras negras, durante a manhã.
No sábado (11/04), os estudantes das licenciaturas e colaboradores do projeto fizeram uma leitura dramática de “Sortilégio (Mistério Negro)”, conhecido gtexto teatral de Abdias do Nascimento (1914-2011), ambientada em um terreiro de candomblé e que trata de questões como: a negação das raízes africanas, o embranquecimento e a propagação de um discurso alienante.
No domingo (12/04), as atividades tiveram início com a leitura acompanhada de trechos da obra “Um Defeito de Cor” (2006), de Ana Maria Gonçalves, com reflexões no campo educacional brasileiro, realizadas por Laura Silva e Adiliane Batista. Os participantes também tiveram a oportunidade de compreender a oralidade do terreiro por meio de visita guiada aos Pejis (locais sagrados).
Outra atividade foi a oficina de toques de atabaque, promovida por Negra Kalua, que estimulou nos estudantes a troca de saberes dos ritmos de cada Orixá (divindades da religião iorubá), sob o acompanhamento do colaborador Yapoatan, também integrante da equipe do projeto no Terreiro Salinas.
O segundo módulo acontecerá na segunda semana de maio e o terceiro e último módulo nos dias 13 e 14 do mês de junho.
De terreiro pra terreiro – Trachunhaém-PE
Com foco em poéticas, dança, musicalidade e geografias negras, o curso busca fortalecer o estudo das múltiplas dimensões do Terreiro como matriz de saber e ação. Já foram realizados três encontros nos dias 28/03, 07/04 e 14/04.
O primeiro encontro “No canto das memórias” iniciou a rodada do curso Nego Bispo, recebendo representantes do Terreiro de Mãe Amara de Tradição Nagô, Sítio Malokambo, Laboratório de Intervenção Artística e Cultura Popular Canto da Laia e do IFPE, com o projeto de “Terreiro para Terreiro”, onde o mestre Zé Negão, junto com a mestra Fátima, Yá Olefun e o Mestre Malungo Jundiá puderam confluenciar com seus saberes junto aos corpos terreiros que e fizeram presentes na partilha.
Já o segundo encontro do curso “De Terreiro pra Terreiro”, foi realizado em
07/03, e conduzido por Mestre Joab Jo Malungo Jundiá e Orumile, a partir do Pernamokambo Capoeira Angola e no chão do sítio Malokambo, na cidade de Trachunhaém, e novamente com a presença do Mestre Zé Negão.
O terceiro encontro, aconteceu no Terreiro de Mãe Amara, com a benção e a ciência da Yakekerê Helaynne Sampaio.
O curso “De Terreiro Pra Terreiro” é um ajuntamento do Canto das Memórias do Mestre Zé Negão, com o Pernamokambo Capoeira Angola e com o Terreiro de Mãe Amara, em parceria com o Instituto Federal de Pernambuco, junto ao programa Escola Nego Bispo.
“Artes e Ofícios Quilombolas – Sabão, Sabonetes e Extratos de Plantas Medicinais no Quilombo Severo” – Sertânia
O projeto “Artes e Ofícios Quilombolas – Sabão, Sabonetes e Extratos de Plantas Medicinais no Quilombo Severo” teve seu primeiro módulo realizado no dia 22 de março, no Quilombo Severo com a presença de 25 cursistas, mestres e mestras e equipe realizadora.
As atividades ocorreram nos dias 22/03, 11/04 e 12/04, nos territórios do Quilombo Riacho dos Porcos e do Quilombo Severo, no município de Sertânia, sendo conduzidas pelo mestre de saberes Maurício de Siqueira Silva, com acompanhamento do proponente do projeto, professor Ciro Linhares de Azevêdo (IFPE Campus Garanhuns), além da participação da comunidade de detentores de saberes tradicionais.
No dia 22/03, foram desenvolvidos os seguintes módulos:
Módulo 1 – História e identidade quilombola: gira sobre o resgate histórico da comunidade do Severo; discussão sobre legislação de direitos quilombolas; leitura de trechos de Nego Bispo e debate sobre racismo, colonialidade e contracolonialidade;
Módulo 2 – Etnobotânica e plantas medicinais: identificação e coleta responsável de plantas medicinais; socialização de saberes sobre propriedades terapêuticas e práticas de biointeração comunitária.
No dia 11/04, foram promovidos os módulos:
Módulo 3 – Técnicas tradicionais de extração: exposição sobre métodos de extração de óleos e essências, preparação de tinturas, macerados e óleos vegetais, além de orientações sobre higiene e segurança;
Módulo 4 – História do sabão na comunidade: oficina prática de fabricação de sabões artesanais, com ênfase em receitas tradicionais, proporções e processos de saponificação.
No dia 12/04, foram realizados os módulos:
Módulo 5 – Produção de álcool tradicional: estudo dos princípios de fermentação e destilação, uso de plantas aromáticas e cuidados sanitários e legais;
Módulo 6 – Cosmologia e espiritualidade afro-brasileira: gira sobre a relação entre plantas, espiritualidade e cuidado, com abordagem de práticas e rituais vinculados às religiões de matriz africana.
A proposta formativa do curso articula saberes acadêmicos e tradicionais, valorizando a memória, a identidade e as práticas produtivas das comunidades quilombolas, em consonância com políticas de educação intercultural e antirracista.
No último encontro do dia 26/04, foram abordados as seguintes temáticas:
Módulo 7 – Artes e ofícios em design e embalagem – Realização de oficina de desenvolvimento de embalagens artesanais, pintura e gravura em rótulos e técnicas de artesanato em cerâmica ou madeira para recipientes.
Módulo 8 – Economia solidária e gestão coletiva – Compartilhamento de experiências e informações sobre a organização de cooperativas, precificação justa, rotulagem, certificação e aspectos legais da comercialização comunitária.
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